Por que dois relatórios da mesma coisa nunca batem
A reunião trava discutindo qual número está certo em vez de decidir. Quase sempre os dois estão — medindo coisas diferentes com o mesmo nome.
A cena é conhecida. Alguém apresenta o número de atendimentos do mês. Outra pessoa diz que no sistema dela o valor é diferente. Nos vinte minutos seguintes a reunião deixa de ser sobre a decisão e passa a ser sobre a planilha.
O incômodo natural é concluir que algum sistema está errado. Na prática, quase sempre os dois estão certos — e é justamente esse o problema.
O mesmo nome para coisas diferentes
Pegue algo aparentemente trivial como "atendimento realizado". Duas áreas podem contar isso de formas legitimamente distintas:
- O momento do corte: quem conta pela data do agendamento e quem conta pela data da execução divergem em todo início e fim de mês.
- O que entra: retorno conta como novo atendimento? E o que foi remarcado, cancelado no dia ou não compareceu?
- O nível de agregação: por paciente, por procedimento ou por guia — três números diferentes para a mesma realidade.
- O recorte de status: contar apenas o que já foi faturado exclui tudo que está em análise.
Nenhuma dessas escolhas é errada. O que está errado é as duas existirem sem que ninguém tenha registrado qual é qual.
Por que a ferramenta não resolve
É tentador tratar isso como problema de tecnologia e partir para uma plataforma de BI. Só que uma ferramenta nova conectada às mesmas fontes, sem acordo prévio sobre definição, produz o mesmo desencontro — agora com gráfico bonito e custo de licença.
Comprar plataforma antes de acordar o que medir é a forma mais cara de continuar sem informação.
O que resolve: um glossário com dono
A correção é menos técnica do que parece. Para cada indicador que aparece numa reunião de diretoria, quatro coisas precisam estar escritas em algum lugar:
- 01A definição em uma frase, incluindo o que fica de fora.
- 02A fonte: de qual sistema e de qual campo o número sai.
- 03A regra de corte: qual data manda e o que acontece com o que atravessa o período.
- 04O responsável: quem responde quando o número for questionado.
Esse último item é o que costuma faltar e o que mais muda o comportamento. Um indicador sem responsável não é acompanhado — é apresentado.
Menos indicadores, não mais
Existe uma reação comum ao problema de confiança nos dados: produzir mais relatórios. É o caminho oposto ao que funciona.
Um painel executivo com dezenas de números deixa de ser lido em poucas semanas. A pergunta que corta bem é: quais decisões a diretoria precisa tomar neste trimestre, e qual número mudaria cada uma delas? O que não passa nesse filtro pode existir em algum lugar, mas não no painel principal.
O teste de duas semanas
Antes de qualquer projeto de dados, um exercício barato revela bastante: escolha os três números mais citados nas reuniões e peça, separadamente, que duas áreas expliquem como cada um é calculado.
Se as explicações baterem, o problema é de acesso e automação — resolvível com integração. Se não baterem, o problema é de definição, e nenhuma ferramenta vai resolver antes de a conversa acontecer.
Consultoria nos temas deste artigo
Este tema no palco
Palestras que aprofundam o assunto.
Continue lendo
Todos os artigosContinuidade operacional: por que a verificação do backup mede a coisa errada
A rotina é monitorada como processo — executou ou não. A pergunta que importa é outra: em quanto tempo a operação volta, e quanto se perde no caminho.
Saúde DigitalO que realmente trava entre PACS, RIS e HIS
O exame sai do equipamento e não chega. O laudo fica pronto e não volta. Quase sempre o problema não está no sistema que recebeu a culpa.